Barracão Indígena Elisa Pankararu debate mudanças climáticas, medicina tradicional e políticas públicas

Pela segunda vez, o CBA traz um espaço dedicado exclusivamente às pautas dos povos originários

Texto: Bernardo Camara

Foto: Bernardo Camara/CBA

O movimento indígena esteve presente em todos os Congressos Brasileiros de Agroecologia. Mas agora, os povos originários conquistaram um espaço específico para aprofundar suas pautas: o Barracão Povos Indígenas Elisa Pankararu nasceu de um processo de construção coletiva para trazer protagonismo a quem, desde sempre, exerce a agroecologia na prática.

“Nossos ancestrais sempre fizeram agroecologia”, diz Raquel Tupinambá, que veio da região do rio Tapajós, na Amazônia, para participar do 13º CBA. “A forma dos nossos povos se relacionarem com aquilo que chamamos de natureza é também o que está no centro da produção do conceito de agroecologia trazido pela academia”, afirma ela.

Raquel é uma das integrantes do Grupo de Trabalho (GT) Agroecologia Indígena, da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA). Criado no ano de 2022, o GT entrelaçou definitivamente os movimentos dos povos originários e o agroecológico. Reunindo e representando uma grande diversidade de etnias e biomas, o GT fez a costura que finalmente resultou em um espaço físico e indígena dentro do CBA.

Quem é Elisa Pankararu, homenageada nesta edição

A estreia do Barracão Indígena foi na última edição do Congresso, realizado no Rio de Janeiro (RJ) em 2023. E agora, a tenda se abre no solo de Juazeiro, na Bahia, carregando o nome de uma grande liderança da região: Elisa Pankararu, que vem do sertão pernambucano e tem uma trajetória ligada ao campesinato e ao direito das mulheres. Mestra e doutoranda pela Universidade Federal de Pernambuco, ela é também coordenadora do departamento de Mulheres Indígenas na Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (APOINME).

“Nossos parentes sempre foram convidados a participar de mesas e atividades nos CBAs, mas sem realmente aprofundar nossas pautas. Então fomos dialogando e construindo essa representação mais ativa no evento, para que nossos povos tivessem um espaço mais efetivo, dedicado exclusivamente às discussões da nossa agenda”, diz Raquel Tupinambá. 

Foto: Bernardo Camara/CBA

Clima, saúde e políticas públicas

Na 13ª edição do CBA, o Barracão Indígena levantou uma pauta a cada dia do evento. “Construímos a agenda com muito diálogo entre os parentes, mas também com a participação da coordenação do Congresso e de parceiros como a FUNAI e a Fiocruz, que nos apoiaram durante o processo”, explica Raquel.

Foto: Bernardo Camara/CBA

As mudanças climáticas e seus impactos nos territórios foram o tema de abertura do espaço, no primeiro dia do CBA. Lideranças indígenas de diferentes regiões do país trouxeram seus relatos e vivências sobre a questão, e representantes da FUNAI e da Fiocruz também contribuíram com as discussões, trazendo à tona o racismo ambiental e a justiça climática.

“Não é possível separar o debate e o enfrentamento da crise climática dos processos de concentração de renda e da grande desigualdade social que vivemos no país e no mundo. No caso brasileiro, a demarcação de terras é um elemento central: não há como tratar de mudança do clima sem enfrentar essa questão de maneira mais radical no nosso país”, defendeu Guilherme Franco Netto, representante da vice-presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde na Fiocruz.

Melhor que inteligência artificial, a inteligência ancestral

No segundo dia de evento, a pauta se voltou para as Medicinas Indígenas, quando os mais velhos tomaram a palavra para compartilhar seus conhecimentos e práticas de saúde. “Não deem tanta bola para a inteligência artificial, pois ela não tem afetividade: precisamos da inteligência ancestral”, disse Anastácio Guarani Kaiowá, ressaltando a importância de buscar na natureza e nas relações comunitárias a cura do corpo e do espírito. “Nossa ciência é a continuidade do mundo!”, avisou.

Foto: Bernardo Camara/CBA

As políticas públicas de aquisição de alimentos – como o PAA e o PNAE – foram o tema do terceiro dia no Barracão, quando representantes indígenas dialogaram sobre as oportunidades e desafios no acesso a esses programas. E antes do fechamento do Congresso, a tenda dos povos originários virou um grande terreiro de reflexões e direcionamentos estratégicos para a continuidade da luta indígena e agroecológica nos espaços de poder.

Foto: Bernardo Camara/CBA

Depois de tantas trocas e novas memórias construídas durante os dias de CBA, os povos indígenas definitivamente seguirão caminhando junto pelas estradas abertas junto ao movimento agroecológico. “A ideia é que a gente ocupe cada vez mais espaços. Como falar de agroecologia sem colocar os povos indígenas em evidência? Somos parte de um processo que de certa forma originou esses conceitos”, diz Raquel Tupinambá. “Entendemos que esse é o caminho possível: fortalecer a agroecologia é essencial para a continuidade da vida humana e não humana no planeta”.

Sobre o Congresso Brasileiro de Agroecologia

Realizado a cada dois anos desde 2003, o Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA) é construído por uma ampla frente de parceiros nacionais e internacionais, configurando-se como o maior encontro latinoamericano de agroecologia.

Mais que um espaço de fortalecimento da agroecologia como ciência, o CBA é um território de diálogo entre diferentes formas de conhecimento, proporcionando legados agroecológicos em todos os territórios por onde ele passa.

Compartilha nas mídias:

Faça o seu comentário:

Tem dúvidas sobre o CBA?

Acesse aqui várias dicas no nosso FAQ