No primeiro dia do Congresso, centenas de pessoas saudaram a abertura do 7º Encontro Nacional de Agricultoras e Agricultores Experimentadores e do 3º Terreiro de Inovações Camponesas.

Abertura do do 3º Terreiro de Inovações Camponesas e do 7º Encontro Nacional de Agricultoras e Agricultores Experimentadores no 13º CBA em Juazeiro (BA) dá voz para o compartilhamento de inovações que acontecem diretamente no campo. Foto: Bernardo Câmara/CBA
Realizado desde 2009, o Encontro Nacional de Agricultoras e Agricultores Experimentadores chega à sua sétima edição com um marco: pela primeira vez ele acontece dentro do Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA). Nesta quarta-feira, 18/10, um mar de trabalhadores do campo e das cidades lotaram a plateia da Tenda Caatingueira para saudar esta parceria. O encontro também abriu oficialmente o 3º Terreiro de Inovações Camponesas do CBA, reforçando o papel dos agricultores como produtores não só de alimentos, mas também de conhecimentos.
“Por muito tempo nós agricultoras e agricultores fomos invisibilizados em nosso papel de construir ciência. Nossa presença no CBA é uma forma de abrir o diálogo de saberes, da construção coletiva do conhecimento”, afirmou a agricultora Roselita Victor, que integra a coordenação executiva da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) pelo estado da Paraíba.
A presença desses importantes atores da agricultura familiar no Congresso não é novidade. Mas sua participação e protagonismo vêm crescendo a cada edição: este ano mais de 800 agricultoras e agricultores de todo o país desembarcaram em Juazeiro, na Bahia, para compartilhar no CBA as inovações e saberes desenvolvidos historicamente em seus territórios. “Construímos diálogo com quem está na academia e nas escolas. Um saber não se sobrepõe ao outro: eles se completam, se ajudam”, ensina Roselita.
E é justamente esta a proposta do Terreiro de Inovações Camponesas: abrir mais espaço no Congresso para que as tecnologias sociais nascidas nos assentamentos, nas roças e quintais, ganhem visibilidade. “Falar de inovação é falar da luta dos nossos mestres, pais, avós, bisavós. Não há inovação se não bebemos dessas fontes, se não voltamos às nossas raízes”, diz o agricultor Vagner do Nascimento, do Quilombo do Campinho, em Paraty, Rio de Janeiro. “Nos juntamos a pesquisadores e universidades, mas com a compreensão de que nosso povo tem uma história”.
Inovações que nascem nos territórios
É sobre sua própria história que a agricultora e estudante de agroecologia Miriam Castro, de Roraima, subiu ao palco do CBA para falar. Ela contou que durante a transição agroecológica em seu assentamento, não sabia o que fazer com os dejetos dos porcos que criava. Lhe recomendaram instalar um biodigestor no local. Sem recursos financeiros, ela pegou baldes e outros objetos que tinha em casa e acabou inventando seu próprio biodigestor.
“Boa parte da minha plantação hoje é adubada com o biofertilizante que eu mesmo produzo. Eu sei o que eu coloco no meu solo, como eu cuido do meu solo”, disse ela, feliz de compartilhar sua criação: “A gente se sente abraçado com o convite de vir ao CBA mostrar as experimentações que nascem nos nossos territórios”.
O presidente da Associação Brasileira de Agroecologia, José Nunes da Silva, celebrou a abertura do 7º Encontro Nacional de Agricultoras e Agricultores Experimentadores e do 3º Terreiro de Inovações Camponesas. E afirmou: “A agroecologia é o encontro das ciências”.
“Esse é o caminho para construirmos um mundo melhor e mais humano. Valorizar os sujeitos que fazem a agroecologia na prática é fazer agroecologia de forma integral”, acrescentou Roselita Victor.
Sobre o Congresso Brasileiro de Agroecologia
Realizado a cada dois anos desde 2003, o Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA) é construído por uma ampla frente de parceiros nacionais e internacionais, configurando-se como o maior encontro latinoamericano de agroecologia.
Mais que um espaço de fortalecimento da agroecologia como ciência, o CBA é um território de diálogo entre diferentes formas de conhecimento, proporcionando legados agroecológicos em todos os territórios por onde ele passa.
Texto: Bernardo Câmara