Na manhã desta quinta-feira (16), tiveram início as atividades da Cozinha das Tradições Tia Liquinha, que apresenta 20 receitas planejadas para este momento de resgate e valorização das práticas alimentares do Semiárido e de outras regiões do Brasil. A experiência integra a programação do 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA), realizado em Juazeiro, Bahia.

Foto: Manuela Cavadas/CBA
Nomeada em homenagem a Tia Liquinha, quilombola centenária de Várzea Queimada (BA), a cozinha reconhece o legado de uma mulher símbolo de resistência, que dedicou a vida à luta pela terra, pela liberdade e pela valorização da cultura de seu povo.
As atividades tiveram início com um diálogo conduzido por mestras da culinária tradicional sobre a importância da alimentação, seguido de um ritual com cânticos indígenas e de matriz africana, em bênção à abertura dos trabalhos. Em seguida, foi realizada uma mesa de apresentação das três mestras cozinheiras da manhã, que compartilharam experiências sobre cozinha afetiva, ancestralidade, saúde e espiritualidade.
O momento também celebrou o trabalho de Tamiris e Nzinga, do Sítio Ágatha, em Tracunhaém (PE), responsáveis pela construção dos quatro fogões de barro utilizados ao longo das atividades da Cozinha das Tradições.
Receitas e memórias de resistência
Bela, da nação indígena Xukuru de Ororubá, preparou beiju com coco. A mandioca, base da receita, tem memória histórica e simbólica como alimento de resistência durante o período de luta pela desintrusão do território Xukuru — quando as famílias, expulsas de suas terras, tiveram na mandioca sua principal fonte de nutrição.
Mãe Ivone Maria de Oliveira, da comunidade quilombola Mangueiras, de Belo Horizonte (MG), apresentou o cubu, também conhecido como nego deitado, receita com base de fubá assada em palha de bananeira. O prato remete à memória afetiva de sua família e às vivências no quilombo com sua avó. Segundo Ivone, o nome “nego deitado” surgiu da crença de que o preparo só ficava bom quando os homens dormiam — uma superstição passada de geração em geração.
Socorro Pereira, das comunidades tradicionais de fundo de pasto em Curaçá (BA), trouxe duas receitas: o cuscuz de mandioca com ouricuri e castanha de caju pilados, e a geleia de palma. A mandioca utilizada representa a resistência das comunidades do Semiárido, por sua capacidade de regeneração e sobrevivência às estiagens. Já a geleia de palma propõe ressignificar o estigma em torno desse alimento, que foi essencial à sobrevivência e nutrição das famílias durante as secas.
A Cozinha de Tradições Tia Liquinha mostra que alimentar é também resistir. Reafirma o compromisso do CBA com a soberania e a segurança alimentar, valorizando os saberes populares, a ancestralidade e a agroecologia como caminhos de resistência, autonomia, e cuidado com a vida.
Sobre o Congresso Brasileiro de Agroecologia
Realizado a cada dois anos desde 2003, o Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA) é construído por uma ampla frente de parceiros nacionais e internacionais, configurando-se como o maior encontro latinoamericano de agroecologia.
Mais que um espaço de fortalecimento da agroecologia como ciência, o CBA é um território de diálogo entre diferentes formas de conhecimento, proporcionando legados agroecológicos em todos os territórios por onde ele passa.