
Em sua terceira edição e primeira no Semiárido brasileiro, o FICAECO integrou o CBA com uma programação multilinguagens que entrelaçou arte, política e agroecologia
As histórias, saberes e cosmologias dos povos brasileiros e suas lutas pelo Bem Viver e pela biodiversidade da Terra confluíram mais uma vez na tela e nos encontros do 3º Festival Internacional de Cinema Agroecológico, o FICAECO, realizado nos dias 16 e 17 de outubro de 2025.
Em sua terceira edição, o festival – que integra a programação do Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA) – ocupou o Centro Cultural João Gilberto, em Juazeiro, e o Espaço Cultural Janela 353, em Petrolina, com uma programação intensa de filmes do Brasil e América Latina, além de debates, homenagens, exposições, rodas de conversa e até uma oficina de ”celumetragem” – a arte de produzir cinema usando o celular.
Reafirmando-se como um momento de celebração do cinema agroecológico, em que as dimensões artística e política se entrelaçam, o FICAECO inovou mais uma vez ao integrar debates, apresentações artísticas e homenagens às exibições de filmes.
A diversidade na tela do cinema
A presença de representantes de povos tradicionais ocupando o festival junto a realizadores, pesquisadores, entre outras pessoas ligadas às produções, reinseriu o evento como um dos mais importantes espaços de valorização das vozes e fazeres agroecológicos das comunidades.
”A gente percebe que o festival vem se aprimorando. Tivemos muitos filmes, tanto ficção quanto documentários, com muito mais qualidade – filmes que estão no circuito, e que trazem histórias ancoradas nas regiões e territórios, principalmente de pessoas negras”, conta Dagmar Talga, coordenadora geral do FICAECO.
Este ano, o Festival recebeu um número recorde de 380 filmes inscritos, dos quais 34 foram selecionados para a mostra. Um dos destaques da edição foi alta participação de povos indígenas, que responderam por 30% dos filmes exibidos, e das mulheres, que dirigiram 70% de todos os filmes da mostra.
Para marcar esta valorização, as pessoas organizadoras entregaram a representantes dos filmes homenageados diversas estatuetas de autoria do artista plástico Felipe Corcione, que reinterpretam a icônica estatueta do Oscar a partir da cosmologia do povo Xukuru. Aqui, o famoso ”homenzinho” representou o cacique Chicão, cujo assassinato disparou o processo de demarcação do território.
As mostras Abya Yala e Opará



Pelas duas mostras do festival,“Abya Yala” e “Opará”, passaram produções cinematográficas curtas e longas com linguagens e temáticas diversas, como agricultura urbana e rural, agrotóxicos, biodiversidade, soberania alimentar, cultura e ancestralidade.
Os filmes ”Katxa nawa: cantar para o crescer das plantas/Katxanawairan nukun yunu xarabu ewawa katsi itiki”, e ”Temporadas de Lluvia”, estiveram entre as obras homenageadas no segundo dia do encontro, 17 de outubro. Produzido por Jorge Naxima Huni Kuĩ, Maria de Fátima Pai Huni Kuĩ, Thayná Ferraz e Alice Rif, o primeiro documentário trouxe o ritual Katxa Nawa, do povo Huni Kuĩ, do Acre, em que homens e mulheres cantam e dançam por uma noite inteira para fortalecer suas sementes.
O segundo filme, um curta-metragem de Dani Eizirik que mistura animação e cenas gravadas, contou como a cultura do algave (uma espécie de cacto) se mistura com a cultura humana de Oaxaca, sul do México, e como a tradicional bebida feita da planta, o mezcal, vem sofrendo com a industrialização.
No início da sessão, Isidora dos Santos Gonçalves, da Comunidade do Caruaru, de Correntina (BA), comentou que se emocionou ao assistir os filmes do festival, por ver refletida sua luta na luta de outros povos abordados nas obras: ”às vezes temos que ver a realidade para sentir o que os colegas de outros territórios vivem. Podemos ter lutas diferentes, mas ela é a mesma, no final: resistir para existir”, afirmou.
A presença indígena no FICAECO
Em outro momento do encontro, antes de começar a sessão, integrantes indígenas entoaram cânticos e rezas, convidando o público, formado em sua maioria por jovens de escolas locais, a abrir seus corações para os modos de vida dos povos originários, tão importante para que conheçamos nosso passado, presente e futuro.
Uma parceria do FICAECO com a prefeitura de Juazeiro levou cerca de 200 alunos de escolas para todas as sessões de cinema da mostra. Na sala, turmas animadas e curiosas ouviram um pouco mais sobre a vida e a importância das pessoas indígenas a partir do relato de experiências de representantes da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI), que participaram da produção do ”Katxa nawa”.
”Todo o Brasil era terra indígena, e ainda é: esta terra é sagrada”, reforçou a servidora Thainá Ferraz. Ela explicou aos jovens sobre a oralidade como importante maneira de manter a memória do povo Huni Kuĩ viva – uma memória que também passa pela proteção de suas sementes, que também são embriões vivos.
Tainá chamou a atenção para o fato de que as 391 nações indígenas que vivem no Brasil desde antes do início da colonização são as que mais contribuem para manter a biodiversidade do planeta. Não só pelos modos de ser – que respeitam os ciclos dos territórios, interagindo com dignidade com outros seres vivos e não vivos – como também através dos seus 295 diferentes idiomas. ”Imagina que chato seria se todo mundo falasse português. A diversidade é libertadora”, conclamou.
Um festival que transcende o físico

Reverberando esse chamado à diversidade dos povos, a riqueza de propostas marcou o FICAECO este ano através de seus formatos inovadores, temas debatidos e participantes carregando diferentes perspectivas.
No palco, na exibição de arte, ou nas salas onde as rodas de conversa aconteceram, a ideia foi promover intercâmbios profundos entre as equipes envolvidas nos filmes, além de pessoas pesquisadoras, agentes florestais, ativistas, representantes de povos tradicionais, servidoras e servidores públicos, entre outros.
Algumas parcerias do 3º FICAECO permitiram ainda que ideias e reflexões espiralassem para além do território físico do festival, como foi o caso do Coletivo Magnífica Mundi, da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Goiás, que transmitiu as rodas de conversa ao vivo, e a assessoria de imprensa do evento, que levou o festival pela primeira vez a grandes veículos de imprensa.
O crescimento de produções na agroecologia

Apesar desse crescimento, Dagmar destaca que há ainda muito o que fazer para levar o cinema agroecológico para mais lugares, mais festivais. ”Precisamos avançar mais; o governo tem dado a oportunidade da produção audiovisual, o que reflete em filmes que chegam com muito mais qualidade aos festivais. Mas a questão é a distribuição, que ainda segue muito difícil no Brasil”, afirmou.
A coordenadora, porém, é otimista. A agroecologia, conta ela, é um tema novo para o audiovisual em geral, por isso gera caminhos e oportunidades inéditas – inclusive, de ”crescer com a agroecologia”, como ela conta. ”Trabalhar com a temática no cinema é mostrar seus rumos, mostrar que a agroecologia envolve todo o processo de vivência nossa como sociedade. Que ela chegue com força às produções cinematográficas brasileiras”, disse.
O crescimento de produções de altíssima qualidade de autorias indígenas, quilombolas, camponesas e ribeirinhas, dentre outras, aponta para esse horizonte. ”As comunidades tradicionais estão chegando com suas próprias produções; filmes com um gosto refinado, uma sensibilidade própria, que se juntam à qualidade do cinema brasileiro”, diz a coordenadora.
Ao se afirmar como um lugar de distribuição, mas também de encontros e trocas que buscam um mundo mais justo, o FICAECO semeou o território do Semiárido com as histórias de luta e transformação de quem ”segura o céu” mundo afora – as comunidades de seres humanos e não-humanos, como as sementes dos Huni Kuĩ, que têm formas de habitar a terra capazes de manter os territórios vivos e pulsantes.
Foi um chamado sensível, no coração do Semiárido, para reverberarmos juntos a ideia de um cinema vibrante, que pensa e produz a arte e as ações da agroecologia a partir da autonomia dos povos sobre suas próprias histórias.
O 3º FICAECO em números
- 380 filmes inscritos
- 34 filmes exibidos
- Filmes de 6 países, e de todos os 27 estados brasileiros
- Público de 1300 pessoas
- 3 rodas de conversa com transmissão ao vivo
- 1 oficina de celumetragem
- 2 exposições de arte
- 2 apresentações culturais
- 70% dos filmes dirigidos por mulheres
- 30% dos filmes com participação indígena
Texto: Fernanda Favaro