Identidade visual do 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia pulsa o Semiárido

A identidade visual do 13º Congresso Brasileiro Agroecologia (CBA) nasceu de um processo colaborativo com integrantes da comissão organizadora do evento, observando que os elementos simbólicos não apenas representam o contexto regional, mas também dialogam com a diversidade de outros territórios brasileiros, respeitando o caráter nacional do Congresso.

O bioma Caatinga, o Semiárido, e o Rio São Francisco foram centrais nesse processo, por sua relevância ambiental, cultural e social para a região. “Meu desafio enquanto designer foi identificar os elementos mais representativos e traduzi-los em uma ilustração coesa, capaz de expressar essa pluralidade de forma harmônica, funcional e visualmente equilibrada”, diz o designer, ilustrador, fotógrafo e produtor audiovisual William França, representante da Imburanatec design, responsável pela produção da identidade visual desta edição do Congresso.

Esse é o primeiro CBA realizado no sertão nordestino, e a escolha de Juazeiro, na Bahia, é estratégica, pois a cidade está localizada no coração do Semiárido brasileiro, às margens do Rio São Francisco, o Velho Chico. Esse aspecto territorial está evidenciado no projeto gráfico, no qual a carranca foi escolhida como elemento central, pelo seu forte simbolismo místico e cultural entre os povos ribeirinhos. William explica que a inovação a esse elemento surgiu ao incorporar um cocar indígena à carranca, criando uma ponte com os povos originários que habitavam as margens do Rio São Francisco e chamavam o manancial de “Opará”. 

William França é designer, ilustrador e comunicador com mais de 15 anos de atuação na área. Foto: arquivo pessoal

A jovem mulher com o cesto de umbu representa a força das comunidades tradicionais, com destaque para o protagonismo feminino e a presença da juventude, que hoje desempenha um papel cada vez mais relevante na construção da agroecologia. Essas comunidades fazem do extrativismo uma fonte de renda sustentável e, impulsionadas por políticas públicas voltadas à agricultura familiar, estão organizadas em associações e cooperativas ativas no cenário socioprodutivo regional.

A bandeira com a cisterna simboliza a luta histórica dos povos do Semiárido pela implementação de políticas públicas voltadas à convivência com o clima e o território. As cisternas de placas são construídas ao lado das casas para captar e armazenar água da chuva. Assim, a tecnologia social assegura água potável para consumo, nos períodos de estiagem, e saúde para milhares de famílias que habitam a região. 

Outros elementos também foram incluídos por sua relevância simbólica para as comunidades rurais, como o caprino, a galinha, os cactos e a arara, representando a rica agrobiodiversidade brasileira. O cesto de mandioca reforça a valorização da comida de verdade, enquanto o maracá — instrumento indígena — contextualiza a presença viva da música, da arte e das expressões culturais que atravessam todo esse Território.

Um processo coletivo

Em sua trajetória, William França busca retratar o Semiárido como um território vibrante, diverso e cheio de vida. E a paleta de cores reflete esse olhar do designer sobre a identidade visual do Congresso. Tons fortes e vivos traduzem a energia da região. O azul remete às águas do Velho Chico, criando contraste com o laranja queimado que evoca o calor do clima semiárido. O verde e o marrom complementam essa narrativa visual, representando a vegetação, a terra e os saberes enraizados no território. “Os traços seguem uma linguagem visual artesanal, próxima da estética popular, o que reforça ainda mais o sentimento de pertencimento” , relata o designer.

Há mais de 15 anos, França vem se dedicando à representação visual do Semiárido. Convivendo com histórias, paisagens, saberes e manifestações culturais que o formaram como artista e comunicador. “Esse repertório me inspira constantemente, mas também me exige escuta, cuidado e respeito com a diversidade dos territórios. Embora seja um trabalho autoral, ele nunca é individual. É sempre fruto de um processo coletivo, de trocas e escutas. Meu papel é filtrar as múltiplas visões, equilibrando-as com os princípios do design para garantir que a identidade visual seja funcional, coerente e aplicável em diferentes suportes — do impresso ao digital — sem perder sua potência simbólica”, ratifica William.

A arte é uma ferramenta que mobiliza e quebra estereótipos

Para o designer, a arte gráfica tem um papel fundamental na tradução de ideias em imagens que tocam, informam e conectam. Em um congresso que coloca o território e a memória no centro do debate, a identidade visual precisa ir além do estético: ela deve emocionar, provocar, representar. Agroecologia também é arte, e é através dela que conseguimos comunicar saberes, valores e lutas. A arte gráfica torna assuntos complexos mais acessíveis, despertando a curiosidade e o engajamento, e criando uma imagem que permanece na memória coletiva. “Ela é, sem dúvida, uma poderosa ferramenta de educação e mobilização”, afirma William.

O Semiárido brasileiro é o mais biodiverso do mundo e, apesar de muitas vezes ser retratado pela grande mídia como uma terra seca e pobre, o designer retrata e afirma a força cultural deste lugar cheio de cor, contraste, resistência e beleza. A identidade visual do 13º CBA quebra estereótipos e reafirma a riqueza do Território. Ela representa não apenas a convivência com o Semiárido, mas também o orgulho de pertencer a ele. É um retrato visual da força dos povos, suas lutas e da esperança. E é justamente essa força que o Congresso se propõe a celebrar, debater e fortalecer.

Sobre o 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia

Desde 2003, o Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA) é realizado bianualmente com participação ampla de instituições de ensino, pesquisa e extensão, da sociedade civil organizada e de movimentos sociais rurais e urbanos envolvidos com as agriculturas de base familiar, camponesa e urbana. Inicialmente pensado como espaço de fortalecimento da agroecologia como ciência, o CBA vem amadurecendo como lócus do diálogo entre as diferentes formas de conhecimento, construído por uma ampla frente de parceiros nacionais e internacionais, configurando-se atualmente como o maior encontro latinoamericano de agroecologia. 

Com o lema “Agroecologia, Convivência com os Territórios Brasileiros e Justiça Climática”, a 13ª edição do CBA acontece dos dias 15 a 18 de outubro de 2025, no campus da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), em Juazeiro (BA).

O 13º CBA é uma realização da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA), com organização local da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa), Serviço de Assessoria a Organizações Populares (Sasop), Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), Universidade do Estado da Bahia (Uneb de Juazeiro), Movimento dos Pequenos e Pequenas Agricultoras (MPA), Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sertão Pernambucano (IFSertão-PE). Conta também com a contribuição de representantes de diversas organizações, redes e articulações da sociedade civil, instituições de ensino, movimentos sociais populares, poder público e comunidades tradicionais.

Ana Clara Martins
Estudante de Jornalismo da Universidade do Estado da Bahia (Uneb)
Comunicação 13º CBA

Compartilha nas mídias:

Faça o seu comentário:

Tem dúvidas sobre o CBA?

Acesse aqui várias dicas no nosso FAQ