
No último dia 25 de Julho, foi comemorado o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e Dia Nacional de Tereza de Benguela, quilombola, símbolo da liderança feminina por liberdade. A data é símbolo da resistência de mulheres que enfrentam, todos os dias, o racismo, o patriarcado, o colonialismo, o sexismo e a negação de direitos básicos. Este dia é também um chamado à denúncia e ao alerta diante das desigualdades sociais históricas que marcam os corpos de mulheres negras e dos territórios que elas habitam. Com raízes nas filosofias africanas e indígenas, ambas apontam caminhos para o bem viver – construção de modos de vida onde se possa reatar a comunhão humanidade e natureza, valorização das diversidades culturais, com propósito de justiça social e reparação de direitos, comunhão com o meio ambiente, e com os saberes das mulheres negras. Entre elas, Sônia Ribeiro e Daniela Bento.
“Agroecologia é agricultura quilombola”

Sônia Ribeiro – Arquivo pessoal
Sônia Ribeiro cresceu em uma comunidade negra rural no Rio Grande do Sul, num território quilombola. Tem raízes profundas nos povos de terreiro. Ela é filha, neta, bisneta e tataraneta de mulheres que organizavam a vida entre a roça, as crianças e as atividades de terreiro. “Desde criança, compreendo a potência do feminino”, diz. A política, para ela, se manifesta nos gestos do cotidiano: no preparo coletivo da mandioca, nas conversas ao redor do fogão, na partilha, no cultivo.
Ao longo de sua trajetória como socióloga, militante do movimento negro e pesquisadora, Sônia passou a refletir sobre os nomes dados às práticas tradicionais de cultivo e cuidado com a terra. Para ela, o que hoje se chama de agroecologia já era vivido há muito tempo pelas comunidades negras e quilombolas. “A universidade deu um nome novo para aquilo que nossas comunidades já faziam. Para nós, isso sempre foi agricultura quilombola”, afirma. Em sua comunidade de origem, no interior do Rio Grande do Sul, ela viu mulheres organizarem bancos de sementes. “Ainda hoje, para nós, não se trata de agro nem de ecologia. São ambientes naturais. Nós não protegemos a natureza, nós convivemos com ela.”
O Sankofa e a sua relação com a agroecologia
Ela traz como referência a filosofia africana do Sankofa, dos povos Akan, que representa um pássaro que voa para frente com a cabeça voltada para trás, carregando um ovo no bico. “É uma metodologia do como fazer”, explica Sônia. “O futuro é ancestral. Nós precisamos voltar e aprender com as experiências dos povos indígenas, dos quilombos, dos terreiros. Não é sobre criar algo novo, mas sobre resgatar e transformar o presente com base nesse legado.”
Sônia menciona o Quilombo dos Palmares como espaço de referência agrícola, um lugar onde a organização da vida passava pela produção coletiva do alimento, pela espiritualidade e pelo cuidado com o território, assim como ocorria em territórios indígenas. Para ela, é nesse legado que se enraíza o verdadeiro sentido da agroecologia, mais que técnica, uma prática de vida comunitária e sagrada. Destacando que as mulheres negras sempre estiveram na linha de frente desse cuidado com a terra, com os corpos e com a memória e que reconhecer esse papel é fundamental para construir um mundo onde o Bem Viver seja possível para todas.
Arte e agroecologia caminham juntas

Daniela Bento – Arquivo pessoal
Daniela Bento, poeta, e ribeirinha, também reflete esse compromisso com a ancestralidade e a reinvenção do agora. Nascida em Limoeiro do Norte (CE) e hoje moradora de Sergipe, ela começou a escrever ainda criança, ajudando mães que não tinham habilidade da escrita a se comunicarem com seus filhos migrantes. “Foi escrevendo para as outras que descobri que a escrita também é território”, conta.
Sua poesia ecoa múltiplas intersecções: mulher negra, lésbica, periférica. Sua escrita denuncia ausências e produz sentido em meio ao caos. “A arte, como a agroecologia, existe porque precisa existir. Assim como as mulheres que cuidam dos mangues, dos apicuns, das hortas. Produzir alimento é um jeito de viver, de continuar aqui.”
Em um de seus cordéis, “É coisa de preto”, ela provoca e faz uma afirmação política que reivindica o lugar da população negra como guardiã dos saberes. Ao falar sobre a diáspora africana forçada, a poeta lembra que, junto com os corpos escravizados, também foram trazidos conhecimentos, memórias e práticas que resistem ao apagamento. “Em vida ninguém vai me calar”, diz no cordel e essas vidas das mulheres negras continuam reverberando na sociedade.
A data simbólica: é um chamado à escuta e ao reconhecimento das práticas de resistência e reexistência que essas mulheres constroem com o corpo, a palavra e a terra. Além de um dia de luta, que aponta para escuta das mulheres negras e valorização dos seus saberes. “O futuro é ancestral”, reafirma Sônia. “A arte feita hoje é para o porvir”, versa Daniela.
Sobre o 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia
Neste contexto, o 13ª Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA) reverencia e registra a importância ancestral dos povos tradicionais, em especial das mulheres negras, na promoção da agroecologia e convivência com os territórios. O evento é realizado a cada dois anos com participação ampla de instituições de ensino, pesquisa e extensão, da sociedade civil organizada e de movimentos sociais rurais e urbanos envolvidos com as agriculturas de base familiar, camponesa e urbana.
Com o lema “Agroecologia, Convivência com os Territórios Brasileiros e Justiça Climática”, a 13ª edição do CBA acontece dos dias 15 a 18 de outubro de 2025, no campus da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), em Juazeiro (BA).
O 13º CBA é uma realização da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA), com organização local da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa), Serviço de Assessoria a Organizações Populares (Sasop), Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), Universidade do Estado da Bahia (Uneb de Juazeiro), Movimento dos Pequenos e Pequenas Agricultoras (MPA), Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sertão Pernambucano (IFSertão-PE).Conta também com a contribuição de representantes de diversas organizações, redes e articulações da sociedade civil, instituições de ensino, movimentos sociais populares, poder público e comunidades tradicionais
Meiwa Magalhães
Estudante de Jornalismo da Universidade do Estado da Bahia (Uneb)
Comunicação 13º CBA