
A Associação Brasileira de Agroecologia (ABA-Agroecologia), realizou uma série de 5 oficinas de escrita científica entre os dias 17 e 23 de julho. As atividades, voltadas para movimentos sociais, povos e comunidades tradicionais e organizações do campo, ocorreram de forma virtual, reunindo mais de 150 participantes de diversas regiões, entidades e organizações em cada uma delas. As cinco oficinas foram mobilizadoras dos seguintes grupos: o Grupo de Trabalho de Povos Indígenas da Articulação Nacional de Agroecologia (GT Indígenas- ANA), Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Articulação Semiárido Brasileiro (ASA-Brasil), Povos e Comunidades Tradicionais vinculados a múltiplos territórios e movimentos, consolidando um ciclo formativo essencial para a democratização da produção do conhecimento agroecológico e preparação para submissões de seus trabalhos em um dos maiores espaços científicos vinculado a agroecologia na América Latina, o Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA).
O protagonismo dos povos do campo na construção da ciência
A realização de oficinas com movimentos sociais e povos tradicionais reflete o reconhecimento da centralidade desses grupos na construção da agroecologia no Brasil. São esses coletivos que, em seus territórios, desenvolvem práticas sustentáveis, produzem alimentos saudáveis e constroem formas de vida em diálogo com o meio ambiente. Isso ocorre mesmo diante de adversidades como: emergência climática, expansão do agronegócio e exclusão histórica.
Clarice Rodrigues, coordenadora nacional do MST, participante das oficinas, reforçou esse protagonismo: “somos camponeses que produzimos ciência e incentivamos nossa militância a escrever suas experiências, vivências e reflexões sobre agroecologia em nossos territórios”.
Ao se tornarem protagonistas da produção científica no contexto do 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA), que ocorrerá entre os dias 15 e 18 de outubro de 2025 em Juazeiro (BA), no Semiárido brasileiro, esses grupos reafirmam seu papel não apenas como guardiões de saberes ancestrais e populares, mas também como atores estratégicos na formulação de políticas públicas e na construção de uma ciência comprometida com a transformação social e ambiental.
“Esses grupos não são apenas portadores de experiência: são produtores de conhecimento”, afirmou Thais Souza, vice-presidenta da regional sudeste da ABA-Agroecologia, e mediadora das oficinas. “O que estamos fazendo aqui é reconhecer que a agroecologia nasce dos territórios, das lutas, das práticas populares. E é esse conhecimento que precisa ocupar os espaços do Congresso e influenciar a ciência que queremos construir”, frisou Thais.
Mobilização política e novas epistemologias

Mais do que uma preparação técnica para a submissão de trabalhos ao 13º CBA, as oficinas revelaram momentos de mobilização política, formação coletiva e afirmações estratégicas para o acesso a outras epistemologias. Foram criados espaços de escuta, troca e valorização de saberes populares, comunitários e ancestrais – conhecimentos que, historicamente, permaneceram à margem dos processos acadêmicos formais, mas que hoje, se colocam como fundamento para a construção de outras bases para a ciência.
“O Congresso Brasileiro de Agroecologia é esse grande encontro, esse grande desaguar, essa tessitura entre os conhecimentos acadêmicos e os saberes tradicionais, populares, comunitários e ancestrais”, destacou Márcio Harrison, professor do Instituto Federal do Piauí e integrante da Comissão de Saberes e Conhecimentos Técnico-Científicos do 13º CBA.
Criatividade e inclusão nos relatos de experiência
A proposta pedagógica das oficinas mobilizou o uso de metodologias criativas e inclusivas, estimulando a produção de relatos de experiência em múltiplos formatos: escrito, audiovisual, artístico e poético. Cordéis, vídeos, bordados e instalações pedagógicas são aceitos e incentivados, reafirmando que a agroecologia é também linguagem, estética, forma de viver e narrar o mundo.
Thais Souza enfatizou que o projeto faz parte de uma estratégia de fortalecimento de redes e territórios, com foco na construção de uma ciência a serviço do povo. “As oficinas visam potencializar que as próprias comunidades e territórios escrevam suas narrativas, sistematizem suas práticas e participem da construção da ciência agroecológica de forma coletiva, criativa e com pertencimento”.
Para Maria Aparecida da Cruz, indígena do povo Tumbalalá, a escrita é também uma forma de dar visibilidade e reconhecimento aos territórios e às lutas dos povos indígenas. Segundo ela, os documentos produzidos para o CBA podem contribuir com processos de demarcação e reafirmação identitária: “esses registros servem como firmamento de que nós somos povos indígenas, que vivemos e atuamos em nossos territórios dentro da perspectiva agroecológica.”
Essa iniciativa só se tornou possível, pela parceria com a World-Transforming Technologies (WTT) que é uma das organizações que atuam em parceria com vários coletivos do Semiárido. A parceria entre a ABA-Agroecologia e a WTT busca, assim, romper com estruturas hegemônicas e colonizadoras da produção do conhecimento, que desconsideram saberes construídos por meio da oralidade, da prática e da vivência coletiva.
Nessa perspectiva, Mariana Brito, analista de políticas públicas, destaca: “a sistematização e a disseminação de iniciativas envolve o reconhecimento da diversidade e da autonomia das redes sociotécnicas, de maneira a facilitar a interação entre diferentes tipos de saberes, como os gerados pelas universidades e pelos agricultores e evidenciam o protagonismo dos territórios na construção de inovações para a resolução de problemas socioambientais complexos, o que abre caminhos para mudanças mais amplas e sustentáveis no longo prazo”.
Para isso, o projeto promoveu oficinas baseadas na coprodução e no fortalecimento das redes territoriais de inovação, com vistas à transição agroecológica e à incidência em políticas públicas. Essa abordagem se baseia na ideia de que ciência e tecnologia só fazem sentido quando orientadas pelas demandas reais da sociedade e das comunidades.
“A gente está num momento tão importante em que a agroecologia não é uma alternativa, ela é a alternativa para a gente conviver e tentar dar uma sobrevida ao planeta e talvez salvá-lo”, afirmou João Batista, participante da oficina com a ASA-Brasil. “A economia solidária e a agroecologia precisam se fazer presentes cada vez mais pra gente superar os desafios”, comenta João.
Trabalhos científicos e populares são apresentados nos Tapiris de Saberes

Os trabalhos produzidos nas oficinas serão apresentados nos Tapiris de Saberes, uma proposta metodológica que rompe com os moldes tradicionais de congressos acadêmicos. Os Tapiris valorizam a construção coletiva, a escuta ativa e o intercâmbio entre diferentes saberes, conectando pesquisadores/as, agricultores/as, povos indígenas, quilombolas e militantes em torno da agroecologia vivida nos territórios.
Rafael Amorim, do MPA, que participou da mobilização para a realização dos Tapiris de Saberes no Congresso anterior, compartilhou sua experiência: “em 2023, a gente participou ativamente do Congresso Brasileiro de Agroecologia, mobilizando os territórios do estado de São Paulo. Naquele ano, nosso principal desafio foi mostrar que os relatos não eram apenas complemento, mas parte essencial da construção do conhecimento. Fizemos um esforço grande para que as histórias se conectassem e para que a agroecologia não ficasse restrita a uma coleta de dados metodológica, que é importante, sim, mas não é só isso. Foi um processo muito rico. E agora, com as oficinas descentralizadas, esperamos que São Paulo volte ainda mais forte ao CBA.”
Submissão de trabalhos para os Tapiris vai até 15 de agosto
Durante as oficinas, foram apontados os quatro tipos de submissão de trabalhos para o Congresso:
- Resumo expandido técnico-científico;
- Relato de experiência técnica;
- Relato de experiência popular;
- Relato de experiência popular em vídeo.
As submissões devem ser feitas até o dia 15 de agosto de 2025, após a prorrogação do prazo. A ampliação reforça o compromisso com a participação de agricultoras e agricultores, povos indígenas, quilombolas, pescadoras/es artesanais e representantes de movimentos populares.
Thais Souza explicou que os relatos populares, por exemplo, podem ser assinados por até nove pessoas, desde que o autor principal pertença a comunidades tradicionais ou movimentos sociais. Já o formato em vídeo permite expressar experiências que nem sempre cabem no papel, mostrando a força de práticas e saberes ancestrais de forma sensível e acessível.
Agroecologia: um horizonte estratégico em tempos de crise

Em um momento em que o Brasil enfrenta graves retrocessos ambientais, mudanças climáticas e ataques às populações tradicionais, o CBA se configura como um espaço de resistência e de proposição, reafirmando a agroecologia como um horizonte estratégico para o país.
Essas oficinas, portanto, não são apenas um espaço de formação: são parte de um processo maior de disputa por narrativas, de democratização do saber e de reafirmação de que a ciência pode e deve ser construída por todos e todas. Como destacou Thais Souza: “a escrita é também um ato político. É como fincar nossa bandeira no mapa do conhecimento. E dizer: estamos aqui, com nossa história, com nossos saberes, e com nossa forma de fazer ciência.”
Sobre o Congresso Brasileiro de Agroecologia
Com o tema “Agroecologia, Convivência com os Territórios Brasileiros e Justiça Climática”, a 13ª edição do CBA acontece dos dias 15 a 18 de outubro de 2025, no campus da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), em Juazeiro (BA).
Em 2025, o Congresso está sendo realizado pela Associação Brasileira de Agroecologia (ABA-Agroecologia), com organização local da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa), do Serviço de Assessoria a Organizações Populares (Sasop), da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA-Brasil), da Universidade do Estado da Bahia (Uneb de Juazeiro), do Movimento dos Pequenos e Pequenas Agricultoras (MPA), da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), e do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sertão Pernambucano (IFSertãoPE).
Conta também com a contribuição de representantes de diversas organizações, redes e articulações da sociedade civil, instituições de ensino, movimentos sociais populares, poder público e comunidades tradicionais.
Gisele Ramos
Comissão de Comunicação do 13ºCBA