Primeiro painel do CBA debate a territorialização da comida como nutrição, cultura e resistência

No Dia da Alimentação, 16 de outubro, painéis do 13º CBA tiveram temas relacionados à alimentação e agroecologia; no painel 1, pessoas presentes discutiram as novas intersecções entre cidade-campo na produção da comida de verdade.

Foto: CBA

Com o tema ”Cultivando a diversidade e territorializando o sistema agroalimentar: nos roçados e nas cozinhas, Comida de Verdade”, o primeiro painel do 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia celebrou o Dia Mundial da Alimentação, 16 de outubro, com trocas de experiências de construção de arranjos de produção e consumo de alimentos a partir de novos circuitos, dinâmicas e relações entre campo e cidade.

O painel, que começou às 8h na Tenda Catingueira, na Univasf de Juazeiro (BA), reuniu Elisabetta Recine, presidenta do Consea, Daniela Adil de Almeida, do Grupo de Estudos em Agricultura Urbana AUÊ da UFMG, Naiara Bittencourt da Sesan-MDS/UFPR, Gláucia Nascimento do Movimento dos Trabalhadores Sem Direitos/BASE, Leomárcio Araújo do MPA, e Danielle Theodoro do Coletivo Cozinha das Tradições/ESDI/Grupo de Pesquisa e Extensão CulinAfro/UFRJ, com moderação de Patrícia Tavares, da Cnapo/SG-PR.

O entendimento entre as pessoas painelistas foi de que, apesar dos desafios impostos pelo atual sistema alimentar, baseado em monoculturas, exploração e colonização alimentar, há uma rede imensa de pessoas e experiências que combatem a fome e as vulnerabilidades com comida de verdade, bio e culturalmente diversa. 

Nesse cenário, cresce a importância das cidades como sujeitos produtores de novos arranjos alimentares, em conexão com a roça. ”Há uma diversidade imensa nos espaços urbanos que produzem vida nas cidades”, concluiu Daniela Adil de Almeida, após realizar uma rápida enquete com o público sobre quem conhecia hortas urbanas, escolares, quintais produtivos, entre muitos outros territórios onde a divisão rural/urbano se dilui.

Hortas urbanas promovem agroecologia

O Rio do Tempo da agricultura urbana, apresentado por Daniela Adil, da UFMG. Foto: CBA

O crescimento das hortas e roçados urbanos e periurbanos no Brasil a partir dos anos 2010, e do reconhecimento de sua importância para a segurança alimentar, mitigação climática e outros desafios, trouxe a necessidade da organização política em torno da agricultura urbana. Uma necessidade que vem sendo encampada pelo Coletivo Nacional de Agricultura Urbana – CNAU. 

Este ano, o coletivo realizou seu terceiro encontro nacional após dez anos da última edição, e recebeu um assento no Consea. “Foi uma conquista histórica. O desafio agora é nos capilarizar, nos juntar a outros movimentos”, contou Daniela, enquanto o “Rio do Tempo”, parte de um estudo inédito sobre agricultura urbana em seis regiões metropolitanas realizado em parceria com a Fiocruz, era exibido.

Os desafios de territorializar a agroecologia

Há muito o que avançar, porém. As diversas conquistas recentes no âmbito das políticas públicas, entre elas o lançamento da Política Nacional de Agricultura Urbana, ainda enfrentam desafios típicos para sua implementação, como a falta de diálogo com a sociedade civil, orçamento reduzido e mal direcionado, e falta de conexão com outras políticas, como destacou Daniela. 

O público participante reverberou esta percepção, trazendo ao microfone desafios conhecidos das hortas urbanas – falta de recursos, de reconhecimento do seu papel na reterritorialização da comida e de modos de vida tradicionais perdidos com o êxodo rural, e de visibilidade em seu trabalho como guardiãs da agrobiodiversidade. ”As cidades também mandam sementes para o campo”, lembrou uma das participantes.

Foto: CBA

O combate à colonização alimentar

A relação entre educação alimentar e convivência com espaços agroalimentares produtivos também foi destacada, a partir de uma pergunta vinda do público – como o contato com hortas se insere nesse processo? A necessidade de educar as crianças sobre a origem dos alimentos, combatendo a colonização alimentar que transforma caixinhas e embalagens de ultraprocessados em referenciais simbólicos, foi ressaltada pelos painelistas.

”Conhecer como a comida de verdade é produzida é importante porque saímos do mundo do ”plástico”, dos pacotes, e entramos em mundo com profundidade, onde nos reconectamos com nossas culturas através das colheres de pau, cumbucas, folhas de bananeira…Voltamos à nossa convivência essencial com vida, que se dá pela natureza”, afirmou Elisabetta Recine.

O legado da Cozinha das Tradições do 12º CBA

Danielle Theodoro trouxe sua experiência com o resgate da cozinha quilombola como parte desse processo de descolonização da comida para as crianças. Em sua apresentação, recheada de referências a Antônio Bispo dos Santos, o Nêgo Bispo, e a outros críticos das ”monoculturas da mente”, conceito criado pela cientista e ativista indiana Vandana Shiva, a pesquisadora contou de seu trabalho na Cozinha das Tradições. 

O projeto, nascido no 12º CBA de 2023, é um espaço no centro do Rio de Janeiro (RJ), que integra cultivo e prática de culturas e tecnologias alimentares tradicionais, associadas aos conhecimentos acadêmicos.

Além de manter os fogões aquecidos em atividades temáticas, a Cozinha lançou recentemente um guia alimentar escolar de base quilombola. ”Queremos uma alimentação que faça sentido para essas crianças, que dialogue com a ancestralidade que elas carregam”, afirmou.

A Base de apoio a entregadores de alimento

Revolucionar através da comida e promover a vida digna por meio do poder e organização populares também é o trabalho da iniciativa Base, apresentada por Gláucia Nascimento. Nascida do recém-criado Movimento dos Trabalhadores sem Direitos, ligado à cozinha solidária da Lapa, no Rio de Janeiro (RJ), do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), a Base é espaço que leva alimentação, acolhimento, convivência e apoio psicossocial aos trabalhadores de aplicativos. Entre as mazelas do precariado de plataforma estão mais do que a fome – os entregadores, como estes trabalhadores são conhecidos, necessitam de banheiros, espaço para descanso, e apoio para diversas outras questões. Glaucia contou que a importância da iniciativa vem sendo medida pela capacidade dos trabalhadores em “voltar a sonhar”, como um dos entregadores que utiliza o espaço revelou. 

Ela celebra o trabalho das cozinhas – que nasceram durante a pandemia como resposta à fome nas comunidades, e se transformaram em política pública no ano passado – também como “distribuidoras de agroecologia”, via parcerias com organizações como o MPA.

Entretanto, reforçou que a existência de filas de pessoas para receber um prato de comida mostra que a luta continua. ”A palavra fome precisa sair do dicionário, tem que deixar de existir – esse é ter que ser nosso horizonte”, concluiu.

Uma missão: alimentar 5 milhões de pessoas

A última apresentação do encontro trouxe a experiência da Missão Josué de Castro, do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA). A missão tem como objetivo alimentar cinco milhões de pessoas por meio de sistemas agroalimentares de base familiar, camponesa, agroecológica e solidária. 

Lembrando alguns dos lemas do 13º CBA, “é nos territórios que a vida pulsa, é nos territórios que o povo resiste” e ”nada sobre nós, sem nós”, Leomárcio Araújo fez um apelo: “para que haja soberania alimentar, é preciso que haja diversas outras soberanias – de sementes, de terras, de conhecimentos”. O plano camponês, proposto pelo MPA, é uma forma de garantir que esse processo de “soberanização” parta das vivências e vozes camponesas.

O encontro finalizou com uma nova rodada de interações com o público, e a sistematização de alguns pontos fundamentais da conversa. A comida como linguagem, que cria novas realidades por meio dos saberes e sabores de roça e cidade, foi o pensamento final que os participantes levaram para seus territórios.

Foto: CBA

Sobre o Congresso Brasileiro de Agroecologia

Realizado a cada dois anos desde 2003, o Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA) é construído por uma ampla frente de parceiros nacionais e internacionais, configurando-se como o maior encontro latinoamericano de agroecologia.

Mais que um espaço de fortalecimento da agroecologia como ciência, o CBA é um território de diálogo entre diferentes formas de conhecimento, proporcionando legados agroecológicos em todos os territórios por onde ele passa.

Texto: Fernanda Favaro

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