Com presença de Sebastião Pinheiro, referência na agroecologia, o encontro teve recorde de participantes e foi uma aula coletiva com ensinamentos de pessoas agricultoras, pesquisadoras e ativistas

O painel ”Sistemas produtivos agroecológicos em tempos de crise climática: potencialidades e desafios”, realizado no campus de Juazeiro da Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF), no terceiro dia do 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA), foi um dos mais aguardados do evento. Isso porque ele reuniu, na manhã de 17 de outubro de 2025, aulas repletas de diferentes conhecimentos sobre a relação entre agroecologia, clima e vida na Terra – também conhecida como biodiversidade.
Com a presença de Sebastião Pinheiro, referência no tema, o painel abriu espaço para experiências de transição agroecológica em contextos diversos, como Quênia, Argentina, México e regiões Sul, Norte e Nordeste do Brasil. O número recorde de participantes evidenciou o sucesso do encontro, que precisou ser transferido do mezanino do espaço Umbuzeiro Multieventos para a tenda Elisa Pankararu, para que pudesse abrigar com segurança e conforto o grande número de participantes que se achegavam sem parar.
Na primeira parte do evento participaram o professor da Universidade de Groningen, da Holanda, Pablo Titonell; o agricultor e representante da Associação José Lutzenberger, do Rio Grande do Sul, Gabriel Riva Matias; e a representante do Serviço de Assessoria a Organizações Populares Rurais (SASOP) e da Articulação do Semiárido da Bahia (ASA), Márcia Muniz. As apresentações trouxeram experiências marcadas por solidariedade, coletividade e enraizamento territorial.
Bons exemplos de práticas agroecológicas

Enquanto o painel ainda acontecia no espaço Umbuzeiro, Titonell destacou os desafios de implementação de processos agroecológicos e ressaltou a importância de compreender esses sistemas como complexos e interdependentes, de modo que a mudança de um elemento afeta todo o conjunto.
O pesquisador relatou um projeto de restauração de solos no Quênia que exigiu tempo, diálogo e envolvimento comunitário, pois cada propriedade demanda um desenho próprio. Também alertou para o risco de práticas isoladas – como bacias de plantio – transferirem sobrecarga às mulheres, reforçando a necessidade de considerar as dimensões sociais e contextuais da agroecologia.
Como contraponto, citou o exemplo da Unión de Trabajadores de la Tierra, na Argentina, que reúne 31 mil famílias em colônias agroecológicas e mercados solidários e garantiu renda justa às pessoas produtoras, que ficam com cerca de 60% do valor das vendas. “A força desses sistemas está na formação de capacidades, no ativismo político e na autonomia em relação aos governos”, afirmou.
Solidariedade e agroecologia, tudo a ver

Já o agricultor Gabriel Riva Matias destacou a solidariedade campesina como força essencial diante dos impactos climáticos. Em março de 2024, as enchentes no Rio Grande do Sul devastaram as plantações do Assentamento Integração Gaúcha, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), onde ele e sua família vivem da produção de hortaliças.
A água subiu dois metros e contaminou o solo, mas a reação coletiva foi imediata: rapidamente, as pessoas formaram uma ampla rede de solidariedade, que ampliou e passou a envolver organizações nacionais e internacionais. A movimentação possibilitou a reconstrução das áreas produtivas em um tempo recorde de apenas dois meses.
Entre esses parceiros esteve a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que analisou o solo recomposto pelo trabalho em mutirão e diagnosticou que a terra voltou a ter condições ideais para o plantio de alimentos saudáveis e sem a necessidade de veneno, garantindo sua segurança sanitária.
O resultado da pesquisa fez retomar a confiança do público nos produtos da agricultura familiar do acampamento. “A agroecologia, além de resguardar o solo, promove sua memória através de técnicas que envolvem processos, como a compostagem e a cobertura do solo. Mas ela também se apresenta na resiliência dos companheiros, e nas trocas cidade-campo que são baseadas na solidariedade”, disse Gabriel.
Agroecologia promove resiliência climática e faz a economia circular

Finalizando o primeiro bloco, Márcia Muniz trouxe o exemplo do Sertão do São Francisco, território que enfrenta um regime de chuvas cada vez mais irregular com uma desigualdade fundiária histórica. Ela relatou que as famílias da região têm resistido ao assédio de empresas de energia eólica e empresas de mineração com soluções comunitárias e tecnologias sociais, como a construção de cisternas, de bancos de sementes crioulas e de agroindústrias para beneficiamento de frutas colhidas nos quintais e pomares.
O investimento em tecnologias sustentáveis, como tetos solares, sistemas de reuso de água, bancos forrageiros e o “recaatingamento” – estratégia que consiste em proteger áreas do acesso de animais de criação para permitir a regeneração da biodiversidade nativa – estão se expandindo.
O foco, segundo Márcia, é aumentar a capacidade das famílias de armazenar água, produzir alimentos e gerar sementes nativas saudáveis. “Através de nossa experiência, vemos que a agroecologia é um caminho real de enfrentamento às mudanças climáticas. Ela aumenta a capacidade de resiliência dos agroecossistemas, com papel destacado das mulheres nessa estratégia”, resumiu.
Cuidado com os animais também é agroecologia

Antes do início da segunda parte do painel, as pessoas participantes foram convidadas a ocupar a tenda Elisa Pankakaru, onde a representante da Associação de Agricultores e Agricultoras do Território do Araripe (Ecoararipe) em Pernambuco, Maria do Socorro, os professores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Luiz Carlos Pinheiro Machado Filho, do Instituto Federal do Pará (IFPA), Romier da Paixão Sousa, compartilharam suas reflexões sobre os papéis dos animais, das florestas e dos territórios autônomos na construção da agroecologia brasileira.
Luiz Machado Filho apresentou uma aula sobre coevolução e equilíbrio ecológico, mostrando que os animais são recicladores naturais da fotossíntese e fundamentais para a fertilização dos solos e consequente regulação climática.
Ele defendeu que a agroecologia resgata o vínculo ancestral entre humanos e animais, rompendo com o modelo da agricultura patriarcal-capitalista, que os trata como máquinas de produção. “Na agroecologia falamos de criação, não de produção de animais. Os outros seres são sujeitos do processo, e não objetos”, frisou.
Agroecologia gera autonomia

Na sequência, Romier da Paixão Sousa trouxe uma leitura sensível dos processos de transição agroecológica na Amazônia, com base no conceito de “coreografias de recampenização”, criado pelo pesquisador Van Der Ploeg (2008).
O professor informou que cada território precisa “dançar no seu próprio ritmo”, isto é, combinar saberes locais, autonomia camponesa e diversidade produtiva no que chamou de “chão da floresta”, para gerar sistemas de produção familiar específicos da região.
Para ele, a agroecologia só se consolida quando o conhecimento permanece nas mãos das pessoas agricultoras – um exemplo é o mercado de bioinsumos, que é constantemente cooptado pelas práticas colonizadoras do capitalismo, que promovem a dependência de camponesas e camponeses. “Quanto mais autonomia os agricultores desenvolvem sobre seus processos produtivos, mais avançam na transição agroecológica”, explicou.
Práticas mudam a forma de pensar

A relação entre autonomia camponesa e fortalecimento agroecológico também marcou a fala de Maria do Socorro. A agricultora e assentada da reforma agrária compartilhou a trajetória de sua comunidade no sertão do Araripe (PE), que, em 2004, passou a substituir práticas degradantes por sistemas agroecológicos integrados. “A agroecologia transforma nossa forma de pensar e viver”, disse, emocionada.
Em 2014, a Ecoararipe, juntamente com outras quatro associações de produtores de algodão agroecológico da região Nordeste, foram credenciadas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) para utilizar o Selo do Sistema Brasileiro de Conformidade Orgânica em seus produtos.
Hoje, 30 anos depois do início da transição agroecológica, mais de 300 famílias produzem algodão agroecológico certificado em um sistema que mistura avaliações participativas e auditorias do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA).
A iniciativa cultiva o algodão em consórcio com alimentos e plantas adubadeiras e mantém viveiros de sementes crioulas que fortalecem a biodiversidade local. É também ativada por parcerias com cooperativas e marcas sustentáveis.
Uma aula sobre vida, agricultura e liberdade

O encerramento do longo “painel-aula” coletivo ficou por conta de Sebastião Pinheiro, em um dos momentos mais emocionantes do evento. O engenheiro agrônomo e florestal, um dos pioneiros da agroecologia no Brasil e integrante da organização Juquira Candiru Satyagraha, trouxe ao público uma reflexão profunda sobre agricultura, liberdade e o papel essencial das mulheres na manutenção da vida em suas comunidades.
Com o estilo intenso que lhe é familiar, Sebastião lembrou que a agricultura é praticada por apenas cinco seres sociais: o cupim, a saúva, a abelha, o rato-toupeira-pelado da Etiópia, e a mulher.
“É uma classe trabalhadora organizada, feminina, que por altruísmo e dedicação, alimenta toda a comunidade”, afirmou. O mestre ainda brincou que as mulheres criaram a agricultura há milhares de anos por falta de paciência com “o homem míope que não trazia a caça”.
Carbono é matéria-prima da biodiversidade
Ao falar das civilizações matriarcais e da agricultura como expressão de fé, encantamento e memória, defendeu a busca por uma visão espiritualizada e integrada com a natureza. Explicou as instâncias e hierarquias de saber e de poder da humanidade – da casa ao exército, frisando a dominância do patriarcado.
Mas foi quando trouxe o papel dos líquens, organismos resistentes aos extremos climáticos da Terra, aos processos de sequestro de carbono, que Pinheiro encantou ainda mais as pessoas presentes. O professor traçou uma linha do tempo do caminho do carbono pela Terra: ele reage com a água do mar, flocula e se deposita, formando as áreas verdes e os manguezais – berços do oceano e da biodiversidade do planeta.
Ao conectar o líquen do Kilimanjaro ao húmus que forma as terras pretas “de índio”, com suas composições que desafiam a ciência ocidental, Pinheiro criticou o que chamou, resumidamente, de “complexo industrial-militar-financeiro-ocidental”.
Segundo ele, as práticas do agronegócio, nascidas nos anos 1950, são mantidas até hoje por esse complexo industrial-militar-financeiro-ocidental, que transformou a natureza em campo de dominação, morte e lucro.
Solo saudável gera resiliência climática
Para Pinheiro, as respostas à crise climática não virão das corporações, mas das mãos das camponesas e dos camponeses, e do manejo consciente da matéria orgânica do solo que eles realizam.
“Quando eu pego a matéria orgânica do solo e a relaciono com o clima, eu posso calcular como esse clima está variando. E como a família camponesa faz variar, melhorar o solo, com seu trabalho e suor. Isso contribui para superar a crise climática, que só tem uma solução e está nas mãos das camponesas, dos camponeses, e de seu manejo do solo. O resto é piada!”, finalizou, arrancando aplausos calorosos da plateia.
Texto: Fernanda Favaro
Edição: Ludmilla Balduino