Pesquisadoras denunciam impactos severos do agronegócio na saúde e no ambiente, durante o 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia 

A mesa-redonda contou com cientistas da Fiocruz e alertou para o ecocídio que vem acontecendo em diversos territórios do país 

Foto Bernardo Camara

A cada dois dias, uma pessoa morre por intoxicação de agrotóxicos no Brasil. Enquanto isso, o Sistema Único de Saúde (SUS) gasta anualmente cerca de R$ 45 milhões para tratar questões de saúde ligadas a essas substâncias. O alerta foi feito no 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA), em Juazeiro (BA), durante a mesa-redonda “Ecocídio nos territórios do agronegócio e agroecologia para enfrentamento”. E os dados apresentados por pesquisadoras da Fiocruz e da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) estão subestimados: segundo elas, a conta do agronegócio para a saúde da população brasileira provavelmente é muito maior do que isso.  

“Práticas que promovem queimadas, desmatamento e o uso indiscriminado de agrotóxicos representam um risco real de ameaça não só ao equilíbrio ecológico dos ecossistemas, mas à nossa existência. O agronegócio é promotor de injustiças e desigualdades que nos levam ao ecocídio”, afirmou Aline Gurgel, pesquisadora da Fiocruz Pernambuco, explicando que o termo se refere a atos que podem causar danos graves, extensos e de longo prazo ao meio ambiente e, consequentemente, às populações humanas.

Uma estudiosa dos impactos do agronegócio

Em sua apresentação na tenda Rachel Carson – cujo nome é uma homenagem à autora do clássico livro-denúncia “Primavera Silenciosa” – Aline fez um grande apanhado de estudos que evidenciam os impactos severos do agronegócio nos territórios por onde ele avança. E o cenário vem piorando: dos anos 2000 para cá, o uso de agrotóxicos no Brasil aumentou em mais de seis vezes, tornando o país uma liderança mundial no comércio dessas substâncias.

Isso não se dá por acaso: segundo um levantamento da organização Amigos da Terra, publicado em 2022, grandes corporações como a Bayer/Monsanto e BASF já investiram mais de 2 milhões de euros em lobby para influenciar os poderes legislativo e executivo no Brasil. O resultado dessa ofensiva é evidente: principalmente a partir de 2016, houve inúmeros retrocessos na legislação que regula o uso de agrotóxicos no país, abrindo as portas para um crescimento exponencial na aprovação de novos agrotóxicos por aqui, inclusive de alguns que já estão proibidos na União Europeia.

Dividindo a mesa com Aline, a professora e pesquisadora da Universidade Federal do Vale do São Francisco, Cheila Bedor, trouxe um recorte de dados para a região onde o Congresso Brasileiro de Agroecologia foi sediado este ano. Segundo ela, se em 2007 havia 44 grupos químicos presentes nas vendas de agrotóxicos em Juazeiro (BA) e Petrolina (PE),  hoje o número já chega a 78.

“Qualquer região do Brasil onde o agronegócio está presente sofre com essa mesma realidade. Pouco se vê e se fala sobre os impactos disso na saúde dos trabalhadores e de todos nós que moramos aqui. É o capital mais uma vez acima da vida”, critica. “Seja por ação ou omissão, historicamente o Estado brasileiro incentiva esse cenário. Mas isso tem que mudar: precisamos zerar o uso de agrotóxicos e incentivar a agroecologia”.

O que é o Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos?

Foto Bernardo Camara

Apesar do cenário de retrocessos, alguns avanços também precisam ser reconhecidos, lembrou a pesquisadora da Fiocruz Ceará, Fernanda Savicki, que também participou da mesa-redonda. Este ano, junto ao Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Planapo), o governo federal lançou o Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara), apontando caminhos concretos para acabar com o uso dessas substâncias.

Por meio de recursos do Pronara, será possível por exemplo preparar, ambientar e sensibilizar profissionais do Sistema Único de Saúde (SUS) para acolher melhor as populações expostas a agrotóxicos. Especialmente no contexto atual, em que agrotóxicos estão sendo usados como armas químicas no Brasil, em ataques a comunidades brasileiras. O programa ainda pode incentivar o cultivo de plantas medicinais e fitoterápicos não expostos aos agrotóxicos, gerando produtos mais coerentes com o uso medicinal.

Espera-se também que o Pronara incentive práticas de sistemas produtivos de base agroecológica, ampliando e fortalecendo territórios em que as ações são baseadas no respeito à terra e aos seres vivos que nela habitam. Assim, a agricultura familiar, as agriculturas tradicionais, e os sistemas agroalimentares contra-hegemônicos devem ser beneficiados.

Mas Fernanda ressaltou que essa conquista só foi possível com muita articulação dos movimentos sociais, das instituições de pesquisa e de mobilizações permanentes em espaços como o CBA. Segundo ela, mesmo com o PRONARA aprovado, é preciso manter a mobilização social para que ele seja de fato implementado: “O Planapo e o Pronara nascem dessa massa crítica da população, que tem feito o processo de pautar e discutir a pauta agroecológica frente ao agronegócio. Precisamos continuar a construir estratégias para essa luta contra-hegemônica”, defendeu.

Texto: Bernardo Camara

Saiba mais: ABA-Agroecologia celebra criação do Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara)

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