
Quem entrasse na sala 34 da UNIBRAS, ou em qualquer outra das mais de 60 salas de aula onde ocorriam os Tapiris de Saberes do 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA), presenciava uma interação bem diferente dos congressos científicos tradicionais.
Menos banner, paper ou power point, e mais interação e compreensão. Cadeiras dispostas em círculo, e nos centros das salas de aulas de cinco instituições de ensino de Juazeiro, poemas, argila, fotografias, livros, sementes, bandeiras, dentre outras referências que constroem uma diversidade significativa de representações. Girando em diálogo, saberes de todas as regiões do país – e até de outros países – se encontraram.
Assim são os Tapiris de Saberes, espaços de troca e aprendizado entre pessoas envolvidas na elaboração de trabalhos científicos e populares, submetidos e aprovados para apresentação no Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA). O nome vem da cultura indígena. Tapiri é uma espécie de abrigo na floresta, que funciona como base para viajantes e reúne pessoas diferentes origens para encontros que se tornam verdadeiras trocas de informações.
O CBA inspira-se neste espaço temporário, em que as trocas tornam-se importantes para a manutenção do Bem Viver de todo um território, para nomear o espaço de apresentação de trabalhos técnico-científicos e populares. Neste 13º CBA, foram inscritos trabalhos em 19 eixos temáticos relacionados à agroecologia. Esses trabalhos foram apresentados nos Tapiris de Saberes, onde a pluralidade nasce do diálogo entre pessoas agricultoras, artistas, pesquisadoras, educadoras, estudantes, técnicas e representantes de comunidades tradicionais.
Saiba mais sobre os Tapiris de Saberes deste 13º CBA
Quase 3 mil trabalhos foram aprovados para o CBA

Neste ano, a organização implementou os Tapiris da Farinhada, criado para acolher pessoas que, por questões de agenda, não puderam apresentar os seus trabalhos nos horários previamente definidos para elas. Na edição de 2025, a comissão Técnico-Científica, responsável pela organização dos Tapiris, aprovou 2.732 trabalhos, entre resumos expandidos, experiências técnicas e populares.
Voltando à sala 34 da UNIBRAS, lá estava a argentina Guadalupe Carrizo, apresentando um relato de experiência técnica com um tipo de poética que emerge de artistas inseridos em assembleias socioambientais, cujas práticas se entrelaçam com metodologias da agroecologia, do Bem Viver e do trabalho coletivo. Seu trabalho tem como nome “Jornadas de Ecología artística: experiencias poéticas de producción de pensamiento crítico y saberes situados compartidos”.
Ela compartilha como percebeu as trocas do eixo de Arte, Cultura e Comunicação: “esse espaço de troca horizontal e tão próximo entre as pessoas que participamos, possibilita compartilhar conhecimento de um jeito não-binário, horizontal, plural, diverso, biodiverso, biocultural – que é ultra necessário nesse momento histórico que a gente vive em Latinoamérica”.
Capoeira, arte, cultura e Bem Viver

A mesma perspectiva de encontro entre saberes e culturas aparece na fala do professor de agroecologia da Universidade Federal de Roraima, Márcio Akira, que traz no seu trabalho a importância da capoeira e da cultura popular em torno de questões de paz e Bem Viver em regiões em conflito.
“Roraima é uma região de fronteira com a Venezuela e a Guiana, e muitas vezes os estudos se concentram em questões de segurança. Poucos olham para as culturas populares e o quanto elas contribuem para uma sociedade mais democrática e pacífica”, explica.
Povos indígenas e fortalecimento comunitário

Célia Tremembé, da Aldeia Queimada no município de Acaraú do Ceará, trouxe para o Tapiris as ações do projeto “Tremembé no Clima”, que fortalece mulheres e jovens do território indígena por meio de oficinas e sistematizações coletivas sobre práticas sustentáveis e autonomia alimentar.
Ela resume a experiência no evento: “Foi uma grande alegria fazer parte deste momento, trouxemos as nossas experiências e nossos alimentos – mel de abelha, doce de caju, goma e sementes – para partilhar com parentes”.
Os números dos Tapiris de Saberes

- 638 pessoas integrantes da Comissão Técnico-Científica;
- 3.178 trabalhos submetidos;
- 2.732 trabalhos aprovados;
- 1.403 resumos expandidos técnico-científicos;
- 992 relatos de experiência técnica;
- 255 relatos de experiência popular em texto;
- 82 relatos de experiência popular em vídeo;
- 19 eixos temáticos;
- 263 Tapiris de Saberes organizados ao longo dos 4 dias de Congresso.
Sobre o Congresso Brasileiro de Agroecologia
Realizado a cada dois anos desde 2003, o Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA) é construído por uma ampla frente de parceiros nacionais e internacionais, configurando-se como o maior encontro latino-americano de agroecologia.
Mais que um espaço de fortalecimento da agroecologia como ciência, o CBA é um território de diálogo entre diferentes formas de conhecimento, proporcionando legados agroecológicos em todos os territórios por onde ele passa.
O 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia aconteceu de 15 a 18 de outubro de 2025 na cidade de Juazeiro, na Bahia, e movimentou mais de 6 mil pessoas em torno de temas que relacionam a agroecologia com a justiça climática e a convivência das pessoas com os territórios.
Texto: Dani Guerra