Jovens que vivem e estudam no campo têm reafirmado cada vez mais seu protagonismo na construção de futuros possíveis para a agricultura familiar e a agroecologia no Brasil. Suas experiências e trajetórias revelam como a permanência na terra pode ser uma escolha consciente, ligada tanto à valorização da identidade rural quanto à inovação que garante dignidade e sustentabilidade nos territórios.
Esse movimento ganha ainda mais força com políticas públicas como a Lei nº 15.178, que institui a Política Nacional de Juventude e Sucessão Rural, sancionada em julho de 2025. A lei assegura acesso à terra, ao crédito rural, à educação e ao apoio à criação de cooperativas, fortalecendo a sucessão familiar nas propriedades rurais.
No 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA), que este ano acontece entre os dias 15 e 18 de outubro em Juazeiro (BA), as juventudes também terão um reforço na voz: a organização do evento destinou 100 vagas de isenções para as juventudes de todo o território nacional. Dessas, 30% das vagas são destinadas para jovens de todo o Nordeste. Para saber mais sobre como acessar esse benefício, leia as instruções ao final desta matéria.
No 13º CBA, queremos escutar as histórias de jovens como Valdilene Oliveira, Ghiulia Cabral, Larissa Oliveira e Letícia Falcão, que mostram como esses direitos recém-adquiridos podem se concretizar na vida real e, ao mesmo tempo, evidenciam os desafios para que as conquistas permaneçam e se ampliem. E você lê um pouco mais sobre essas histórias inspiradoras a seguir.
Valdilene Oliveira estuda para ser professora das juventudes

Aos 20 anos, Valdilene Oliveira, moradora da comunidade rural Malhada da Areia, em Araci, nordeste da Bahia, representa uma juventude que vem ressignificando o campo no território da Cultura Agrícola do Sisal. Egressa da Escola Família Agrícola de Monte Santo (BA), ela cursa Licenciatura em Educação do Campo pelo Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica (PARFOR), oferecido pelo Departamento de Ciências Humanas do Campus III da Universidade do Estado da Bahia (Uneb).
Para ela, espaços educativos no campo são fundamentais para que jovens vislumbram um futuro digno sem romper com suas raízes: “Essas escolas mostram que o campo tem perspectiva de vida, e que é possível viver nele com dignidade. Não significa que o jovem não possa sair para conhecer outras realidades, mas sim que ele pode escolher ficar, desde que haja políticas públicas para isso.”
Essa visão dialoga diretamente com a Política Nacional de Juventude e Sucessão Rural, que prevê não apenas infraestrutura e conectividade, mas também apoio para que a juventude seja protagonista na inovação e na permanência no campo.
Larissa Oliveira destaca o trabalho das juventudes agroecológicas nas redes sociais

Para Larissa Oliveira, de 28 anos, agricultora e conselheira tutelar da cidade de Vertente do Lério, no sertão norte de Pernambuco, a mentalidade empreendedora das juventudes deve ser mais explorada no campo. Jovens usam as redes sociais para valorizar o seu dia a dia, e mostram o orgulho que sentem de serem protagonistas das suas histórias e do seu lugar. “Eles carregam o orgulho e o legado que vai passando de geração em geração através dos seus pais, dos seus avós, só que de uma forma mais eficaz, sustentável, e livre de agrotóxicos” diz Larissa.
A juventude do campo desempenha um papel essencial na agricultura familiar. É importante reforçar sua identidade e combater a ideia de que o campo oferece poucas oportunidades, mas por outro lado, é sim um lugar que gera renda e empregos. Assim sendo, é fundamental que haja políticas públicas como a de sucessão rural, que incentivam os jovens do campo a permanecerem em seus locais de origem. Dando oportunidades, créditos rurais para investimentos em tecnologia e infraestrutura, e valorizando a agricultura familiar e as práticas sustentáveis, a juventude do campo vai se engajar ainda mais nas ações estratégicas de transição agroecológica.
A coletividade das juventudes inspira as ações de Letícia Falcão

A presença ativa da juventude em espaços de formação, pesquisa e mobilização política mostra que o campo segue vivo e em transformação. Ao ocupar eventos, plenárias e coletivos, esses jovens reafirmam seu papel estratégico na agricultura familiar e na agroecologia, projetando caminhos de permanência e sucessão rural. Mais do que herdeiros, são protagonistas que ressignificam o presente e constroem futuros possíveis para seus territórios.
Para Letícia Falcão, de 29 anos, pesquisadora associada da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA-Agroecologia) e integrante do Grupo de Trabalho (GT) Juventudes desde 2020, o espaço da coletividade desempenha um papel estratégico não apenas na produção científica, mas também na construção política e no fortalecimento da participação das juventudes. “O GT Juventudes é um espaço que agrega jovens estudantes em formação, mas também pessoas de todas as idades que pesquisam e militam pela agroecologia. É um lugar de troca, de acolhimento e de incentivo para que jovens considerem a agroecologia como via sustentável de futuro, articulando ciência, movimento estudantil, coletivos e comunidades tradicionais.”
Ela também destaca a importância da plenária das juventudes nos Congressos Brasileiros de Agroecologia, onde diferentes grupos e setores se encontram para debater experiências e provocar os gestores públicos. “Esses momentos são muito fortalecedores porque reúnem jovens de todo o Brasil, e ainda trazem representantes governamentais para dialogar sobre políticas de juventude, meio ambiente e sucessão rural. Isso gera uma rede de contatos e abre espaço para que as demandas da juventude do campo sejam ouvidas diretamente por quem pode transformar essas reivindicações em políticas concretas.”
Ghiulia Cabral aponta desafios e oportunidades para jovens na agroecologia

Ghiulia Cabral, de 27 anos, pesquisadora do grupo AUÊ! Estudos em Agricultura Urbana e no mestrado em Geografia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), trabalhou sobre juventudes e agroecologia na região metropolitana de Belo Horizonte (MG). Ela ressalta que, apesar dos avanços recentes, ainda existem lacunas importantes nas políticas de sucessão rural. “O acesso à terra continua sendo um dos maiores desafios, assim como a necessidade de políticas efetivas de reforma agrária, assistência técnica e educação contextualizada. É preciso garantir mais condições para que as juventudes tenham qualidade de vida e possam se engajar em práticas agroecológicas com dignidade, fortalecendo a agricultura urbana e o cuidado com a natureza.”
Ela complementa lembrando que o GT Juventudes tem sido um espaço essencial para articular jovens de diferentes contextos e garantir diversidade nos eventos relacionados à agroecologia no país. “As plenárias das juventudes se tornaram um lugar de encontro e de potência. Ali, conseguimos conectar experiências de várias regiões, fortalecer redes e também pensar a juventude como produtora de conhecimento sobre si mesma. Esse é um espaço que amplia a voz dos jovens e possibilita que mais pessoas participem dos processos de decisão e construção de práticas agroecológicas.”
Veja as regras para solicitar isenções para as juventudes no 13º CBA
Com o objetivo de construir estratégias para acolher da melhor forma as diversidades de pessoas e territórios que constroem a agroecologia no Brasil, o 13° Congresso Brasileiro de Agroecologia oferece 100 isenções para as juventudes de todo o território nacional, sendo 30% das vagas destinadas para o Nordeste.
Pessoas jovens de baixa renda que submeteram e irão apresentar seus trabalhos no 13º CBA terão prioridade. As isenções incluem credenciamento no evento, alimentação e acampamento, e podem ser realizadas até o dia 29 de agosto.
Os critérios para seleção são os seguintes:
- Ter idade entre 18 e 29 anos;
- Ser estudante de nível técnico ou graduação;
- Cadastro no CadÚnico;
- Ter realizado a submissão de trabalho e a confirmação de presença no 13º CBA para apresentá-lo.
Sobre o 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia
Desde 2003, o Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA) é realizado bianualmente com participação ampla de instituições de ensino, pesquisa e extensão, da sociedade civil organizada e de movimentos sociais rurais e urbanos envolvidos com as agriculturas de base familiar, camponesa e urbana. Inicialmente pensado como espaço de fortalecimento da agroecologia como ciência, o CBA vem amadurecendo como lócus do diálogo entre as diferentes formas de conhecimento, construído por uma ampla frente de parceiros nacionais e internacionais, configurando-se atualmente como o maior encontro latinoamericano de agroecologia.
Com o lema “Agroecologia, Convivência com os Territórios Brasileiros e Justiça Climática”, a 13ª edição do CBA acontece dos dias 15 a 18 de outubro de 2025, no campus da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), em Juazeiro (BA).
Em 2025, o Congresso está sendo realizado pela Associação Brasileira de Agroecologia (ABA), com organização local da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa), do Serviço de Assessoria a Organizações Populares (Sasop), da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), da Universidade do Estado da Bahia (Uneb de Juazeiro), do Movimento dos Pequenos e Pequenas Agricultoras (MPA), da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), e do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sertão Pernambucano (IFSertãoPE). Conta também com a contribuição de representantes de diversas organizações, redes e articulações da sociedade civil, instituições de ensino, movimentos sociais populares, poder público e comunidades tradicionais.
Produção: Meiwa Magalhães
Texto: Ana Clara Martins e Meiwa Magalhães
Alunas de Jornalismo em Multimeios da Universidade do Estado da Bahia